19 setembro, 2020
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Casal argentino viaja o mundo há mais de 20 anos com seu Graham Paige 1928 e enxerga o mundo como casa

Herman e Candelaria são um casal argentino, ambos nasceram no interior do país, mas cresceram em Buenos Aires. Se conheceram aos 10 e 8 anos, respectivamente, quando Cande era melhor amiga da prima de Herman. Foram amadurecendo juntos, até que começaram a namorar, noivaram e se casaram. Juntos realizaram o sonho de ter o mundo como casa.

Desde criança, ambos tinham o sonho de viajar. Candelaria, queria  Ser caminhoneira para viajar e conhecer novos lugares. Mais velhos, e juntos há muito tempo, o sonho era sempre adiado por alguma razão, até que decidiram finalmente realizá-lo.

Começo da realização de um sonho

A princípio a ideia era fazer um mochilão, colocar a mochila nas costas e ir até o Alasca. E como Herman diz na primeira página do livro: As perguntas e dúvidas eram muitas quando a ideia era viajar com a mochila. Como seria, como fariam, o que aconteceria, o que iriam precisar, papelada, vistos, caminhos, perigos.

Certo dia, um amigo de Herman o chamou para ver um carro antigo, se gostaria de comprá-lo ou se conhecia alguém interessado. Herman nunca se interessou por carro, mas foi por pura curiosidade.

Ao ver o Graham Paige 1928, Herman simplesmente se apaixonou pelo carro, e como nos disse em entrevista: “eu não pensei em ir ao Alasca com o carro, eu simplesmente senti”. Comprou o carro, e com ele decidiu que faria a viagem. “E agora, em um veículo de 1928… com todos seus possíveis problemas? Milhares de perguntas e nenhuma resposta.” Zapp, Herman.

Candelaria não estava certa de viajar com o carro, tão antigo e raro. Herman a convenceu que o carro apenas precisava de pequenos reparos, rodas novas, uma geral na mecânica e a tapeçaria.

Além disso, poderiam levar muito mais coisas no carro, mais roupas, todos a papelada, poderia ser sua moradia, chegariam a lugares que não poderiam com os ônibus ou aviões e não teriam que carregar mochilas.

Herman e Canelaria nos preparativos do carro, o mundo como casa
Herman e Canelaria nos preparativos do Graham Paige 1928

Decidiram fazer um teste de mil quilômetros com o carro, se ocorresse tudo bem, iriam viajar ao Alasca com um veículo pré-guerra.

Iniciaram seu sonho no dia 25 de Janeiro de 2000, quando ainda tinham 31 e 29 anos. Após 6 anos postergando o sonho e 3 meses depois da chegada do Graham Paige, mesmo sem dinheiro para equipar o carro, Herman e Candelaria começaram sua jornada rumo ao Alasca. “… e sentimos algo dentro de  nós, uma inquietude, uma voz, não sei se da alma ou do coração que nos pede que sigamos, que comecemos nossos sonhos”.

Herman e Canelaria no início da viagem, o mundo como casa
Herman e Canelaria no início da viagem.

Sem um mapa do mundo, sem saber como eram as burocracias de entrada e saída dos países, sem uma rota ou itinerário certo, eles seguiram e enfrentaram os medos. “Tenho medo de planejar e averiguar muito, tenho medo de ver todos os inconvenientes e que eles nos assustem”.

“… não temos as respostas e nem ideia de como vamos fazer, mas se não começarmos, nunca descobriremos, nunca iremos…”

Passaram por muitos países, muitas culturas e costumes até chegarem ao Alasca. Muitos problemas e dificuldades pelo caminho, mas também uma grande alegria quando estavam nos Estados Unidos. Nas terras do tio Sam, nasceu o primeiro filho do casal, Pampa, hoje com 17 anos e vivendo na Argentina.

Chegaram ao tão sonhado destino após 3 anos de viagem e com a família crescendo, foi o primeiro passo para tornar o mundo como casa. Primeiro sonho concluído, a família Zapp voltou para a Argentina, onde muitas coisas aconteceram.

Chegada ao Alaska
A chegada ao Alasca

De volta à Argentina

Candelaria precisou cuidar de sua mãe, que batalhava contra o câncer. Herman trabalhava no Graham Paige, fazendo algumas melhorias, como estender o veículo em 30 centímetros para que tivessem mais espaço para todos os filhos que estavam por vir.

Ainda na Argentina, o casal teve seu segundo filho, Tehue, hoje com 15 anos Tehue também escreve e fez uma história em quadrinhos sobre a viagem da família pela África. E já está terminando mais duas edições.

O Graham Paige 1928 ainda com seu tamanho original.
O Graham Paige 1928 ainda com seu tamanho original.
O Graham Paige 1928 com 30 centímetros a mais, para acomodar toda a família
O Graham Paige 1928 com 30 centímetros a mais, para acomodar toda a família

Uma nova jornada

Chegou a hora então de seguir para uma nova jornada. A família, agora com novos integrantes, volta a viajar o mundo pelos próximos 17 anos.

Passaram pelos 5 continentes. Por mais de  100 países. Tiveram mais 2 filhos, Paloma, nascida no Canadá hoje com 12 anos e Wallaby nascido na Austrália com 11 anos. Foram mais de 400 mil quilômetros rodados em seu Graham Paige 1928, que assim como os outros integrantes, possui seu próprio “passaporte”, para poder rodar o mundo.

E mais um vez, agora com as crianças, a Família Zapp fez o mundo como casa.

Toda a Familia Zapp reunida
Toda a Familia Zapp reunida.
Graham Paige da família Zapp servindo de casa. o mundo como casa
Graham Paige da família Zapp servindo de casa. o mundo como casa

Perguntei a eles como era viajar o mundo em um carro pré-guerra, e recebi uma resposta muito interessante. O casal mostrou todo o charme do modelo, que ele simplesmente combina e se conecta com qualquer paisagem, desde as pirâmides no Egito aos arranha céus de Nova York. “É um carro que combina com qualquer paisagem, e chama atenção por onde passa” disse Cande.

Alguns problemas foram enfrentados com o carro, claro, ele tem pouco menos de 100 anos. Herman contou que apesar dos problemas, foi fácil enfrentá-los e consertá-los para seguir viagem. Por se tratar de um carro muito antigo, sua mecânica é muito simples, e tudo no carro é mecânico e fácil de consertar.

Contou-me algumas histórias como quando tiveram problemas com a bomba d´água do carro, que não estava bombeando. Perceberam que a peça era igual de uma máquina de lavar roupas, e a trocaram. Além disso, quando estavam em Zimbabue, África, o motor do carro quebrou, e foram colocadas peças de outros carros, de Fusca, de Toyota e até de Mazda.

Graham Paige da família Zapp arrumando em SP
Graham Paige da família Zapp arrumando em São Paulo

O maior problema enfrentado com o Graham foi o diferencial, que tiverem que encomendar uma peça original para que pudesse ser reparado.

Perguntei também sobre as rodas de madeira, que ainda estão presentes no veículo. Herman contou que teve problema com elas apenas uma vez, e um senhor fez uma nova para eles, e todas continuam inteiras até hoje.

Perguntei também ao casal o que o carro simboliza para eles. Herman disse que representa sua casa, seu lar. Me contou que sempre quis ter uma casa de frente pro mar, em São Francisco (EUA), ou no meio da África, e hoje ele tem uma casa que pode estar em todos esses lugares. Cadelaria me disse que o Graham Paige simboliza momentos, momentos bonitos em que passaram juntos, experiências que viveram, “quando entro nele, sinto cheiro de aventura” Candelaria.

Mesmo sem entender nada de mecânica, deram a volta ao mundo, seguindo viagem de quilômetro a quilômetro. Curtindo a paisagem, que segundo Herman, o Graham Paige tem a velocidade ideal para poder apreciar as paisagens. Além de ser alto e forte, o veículo enfrentou muitas estradas e obstáculos, e a Família Zapp sente o mundo como casa.

Desde 2007 o carro não volta para a Argentina, diferente da família que volta a cada 3 anos para visitar os parentes e descansar para logo retornar à aventura. O Graham já ficou em museus pelo mundo, na Europa e na África do Sul, aguardando sua família, também em casas de amigos, que o cuidavam muito bem.

Livro: “Atrapa tu sueño”

Livro sobre a jornada até o Alasca
Livro sobre a jornada até o Alasca

O livro conta a viagem do casal desde a Argentina até o Alasca, onde já chegaram sendo pais do primeiro filho Pampa. Nas primeiras páginas, Herman narra brevemente como foi toda a decisão para viajarem com o Graham Paige 1928, um pouco do pequenos preparativos e a despedida dos amigos e família. Conta ainda o nervosismo e apreensão nos primeiros quilômetros do 1928 e os problemas que logo tiveram.

O casal traz os detalhes da viagem, de cada país que passaram. O que enfrentaram e experimentaram ao longo do percursos, as casas por onde passaram e conheceram, a cultura e costumes locais. Pois como eles mesmos dizem, “só se conhece os costumes quando entramos nas casas das pessoas”.  Herman e Canelaria, até hoje, só se hospedam em casa de família, que os abrigam e os ajudam, e muitos se tornaram amigos deles.

família Zapp Livro sobre a jornada até o Alasca mais rota. o mundo como casa
Rota da a jornada até o Alasca

Herman narra todas as atribulações sobre o nascimento do primeiro filho, que aconteceu nos Estados Unidos. A dificuldade de encontrar um local onde pudessem ter Pampa seguramente. Muitos os rejeitaram ou simplesmente não os atenderam por ser um hospital particular. Ambos não entendiam como isso poderia acontecer, negar cuidados a um ser humano.

Ao final, Pampa nasceu de forma tranquila e totalmente saudável. E assim, com a família crescendo, seguiram viagem rumo ao Alasca. Chegaram ao destino, cheios de alegria por terem conseguido, depois quase 3 anos de aventura. Após conhecerem o gelado Alasca, a família voltou à Argentina.

Herman e Candelaria seguem a filosofia de curtir a vida, sem se preocupar ansiosamente pelo amanhã. Como ele mesmo me disse, as pedras no caminho aparecerão, e depende de nós superá-las e querer seguir em frente ou não.  Mostram também a importância de seguirmos nossos sonhos: “Temos que começar o sonho, não importa quão grande seja, o mundo está preparado para seu sonho”, me disse Cande em entrevista.

Perguntei a Candelaria sobre seus medos. Como ela contou em um dos vídeos da família, no início ela tinha medo das pessoas, de como os receberiam e aceitariam, como seria a convivência com outros povos, e de certa maneira, depender deles algumas vezes. Expôs que logo esse medo foi passando, quando foi conhecendo e vendo as lindas pessoas que passavam por suas vidas. Relatou também que os medos foram migrando, principalmente quando tiveram os filhos, a preocupação era que adoecessem, que se machucassem.

Mas ainda, Cande diz que quer passar uma mensagem não só aos seus filhos, mas para todos, para que não tenhamos medo das pessoas. Que aceitemos todas as diferenças, não importando a religião, a cultura, as roupas, mas que aceitemos e não tenhamos medo, devemos apenas agradecer aos que passam por nossas vidas. E Herman ainda completa esse pensamento com uma frase: “Por medo, a vida passa”.

Durante a entrevista, Herman expôs por diversas vezes a importância de seguir seu sonho e de viver a vida. “A vida é feita para viver, não para sobreviver”. Me deu exemplos quando estavam na Alemanha, onde todos estão preocupados apenas com o futuro, em guardar dinheiro, e não se dão a liberdade de serem felizes.

Ele critica ainda a sociedade, onde diz que quem tem família e amigos é feliz, mas não tem dinheiro, é taxado como fracassado. E quem não tem família, vive sozinho mas tem dinheiro, é uma pessoa de sucesso.

A pergunta final

Para finalizar a entrevista, fiz uma pergunta sobre o que mais eles levavam com eles da viagem, se eram os lugares, as experiências, as culturas e costumes que conheceram ou se foram as pessoas que passaram por suas vidas.

Herman imediatamente respondeu: “As pessoas… o que mais importa é o carinho. Temos milhares de amigos agora. E também é o mais difícil da viagem, precisar nos despedir dos amigos e saber que nunca mais veremos essas pessoas”.

Ele ainda completa: “O mais lindo da viagem não foi ver as montanhas, as cidades, os museus, catedrais, as praias; no final, o melhor sempre foram as pessoas. Depois de mil igrejas, de mil praias, tudo é igual, mas as pessoas, cada um tem uma história, e algo a nos ensinar”.

 Candelaria disse que as pessoas trouxeram a eles crescimento, ensinamentos a todo momento. Deixam a viagem muito mais sensível, mais humanizada. “As pessoas fazem o lugar”.

As pessoas os ajudaram, a sentir e tornar o mundo como casa deles. 

Após 20 anos de estrada, mais de 400 mil km rodados, mais de 100 países e 2.500 casas de família. A Famlília Zapp, que fez o mundo como casa, está voltando para a Argentina, sem planos definidos para o futuro.

Rotas feitas a cada aventura nesses 20 anos. familia zapp
Rotas feitas a cada aventura nesses 20 anos.

Informações

O livro pode ser comprado entrando em contato diretamente com eles através do Instagram ou Facebook. Traz muitos ensinamentos e histórias, vale muito a leitura.

 Ele já foi traduzido para 4 línguas, foi escrito originalmente em espanhol, com traduções para o inglês, francês e italiano. A versão em português está sendo traduzida e deve ficar pronta em 2021.

O casal também dá palestras, principalmente em empresas, trazendo suas histórias, seus pensamentos, o que aprenderam nas viagens, mas principalmente, despertam em todos a coragem de seguir seus sonhos e viver um dia de cada vez.

A família possui também um canal no YouTube, com vídeos da viagem, de alguns lugares e experiências. Além disso, mostram um pouco do dia a dia, como cozinham, como as crianças estudam, dificuldades com o carro e histórias da jornada.

No canal, vemos vídeos contando um pouco de cada integrante da família, incluindo o Graham Paige 1928. As empreitadas que tiveram para transportar o carro, mas principalmente, a felicidade de estarem viajando o mundo em família, todos unidos e felizes e como aceitaram o mundo como casa.

Assista nosso vídeo sobre a Família Zapp

Redes sociais da Família Zapp

https://www.youtube.com/channel/UCcjH8Y6S8Nrj12NGhYuOQRQ/featured

Vídeo emocionante, onde Herman narra como é viajar em família.

Facebook oficial da família Zapp: https://www.facebook.com/herman.zapp/ 

Instagram: https://www.instagram.com/familiazappfamily/

Frases de Hrman Zapp

 “Se tem seu amor e seu sonho, do que mais precisa” 

“só se cresce superando os medos”

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Me chamo Luís Felipe Risso. Sou formado em administração pela PUC-SP e pós graduado na FGV. Apaixonado por carros antigos, tenho o sonho realizado de trabalhar no meio do antigomobilismo.

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